Ok. A vida é feita de burocracias. Pra nascer
é uma burocracia, pra crescer outra, pra envelhecer
então, nem se fala. Até pra morrer, dependendo do
caso, rola uma burocracia forte; pro moribundo e principalmente
para a família do coitado.
Mas me diga se há alguma coisa mais
burocrática no mundo do que ir a um cartório?
É burocracia da fila para pegar as senhas até, enfim,
conseguir o que você deseja. Ou não conseguir, como
foi o meu caso.
Já é um porre ter que entrar com um
processo contra alguém. Essa situação
já prescinde que a coisa – qualquer que seja ela
– não pôde ser feita de uma forma
amigável, ou no famoso “de boca”. Quando se
entra com um processo contra alguém , já ta rolando
um estresse fenomenal e você já vai preparado para
enfrentar mais alguns por sabe-se lá quantos pares de
meses.
Bem, lá fui eu na quarta feira tirar 720
cópias (isso mesmo) de vários
documentos importantes e originais para levar ao cartório
(ontem e hoje), pra depois entregar ao advogado as cópias
autenticadas (porque entregar o original não é legal;
afinal pode perder, roubarem, molhar, cair café, qualquer
coisa e aí é mais um século pra conseguir
outro igual). Primeiro isso de tirar 720 cópias. Surreal.
Levando em consideração que eu passei a minha
faculdade inteira tirando cópias e gastando, quando muito,
3, 4 reais, realmente, eu fiquei assustada em ter que dar 57,88
reais pro moço da Xerox.
Beleza. Cópias tiradas, devidamente organizadas em
pastinhas, tudo certo, certo? Errado. Eu por alguma sandice dessa
minha cabeça fui animadamente dirigindo meu carro em
direção ao cartório do Shopping Sumaré.
Ele é meu companheiro de tempos, pois foi lá que eu
abri a minha primeira firma. Aliás, que nem deve valer mais,
por que a minha assinatura mudou totalmente. Comentário
rápido: nem me lembro mais porque tive que abrir essa firma,
mas isso existiu em algum momento da minha juventude.
Lá, o cartório só funciona a partir
das 14h. E são poucas senhas distribuídas. Como ainda
era final da manhã, fui pra lá (como eu e minha
irmã fizemos durante um período de muitas idas ao
cartório) e almoçaria por lá mesmo, assistiria
uma tevêzinha básica na pracinha de
alimentação, pegaria minha senha, autenticaria meu
mar de papéis e iria pra casa me sentindo útil. Ledo
engano.
Pra começar, como aqui em Salvador não
temos horário de verão, a programação
passa uma falsa impressão das horas. Resumo: eu estava
assistindo Jornal Hoje achando que já era uma, uma e pouco e
que nada! Meio dia ainda... Mas beleza, terminei de assistir o
jornal, Vídeo Show, Coração de Estudante e
pronto: o cartório abriu. Massa! A minha senha era uma das
primeiras, então ia me liberar rápido.
Quando finalmente me chamaram, eu levei minha sacola de
papéis (sim, eles estavam numa big sacola plástica) e
despejei com delicadeza no balcão da moça com um
simpático “Boa
Tarde” que não foi respondido de
maneira compreensível. Tudo bem, eu não estava nem um
pouco sensível e queria sair dali o mais rápido
possível. Eis que se trava o seguinte
diálogo:
Moça do
Cartório: ok. Me dê as 30.
Zezé: Na verdade
são 720...
MC: Eu
ouvi. Mas estou lhe pedindo as 30. (com
irritação)
Z: A
senhora quer de 30 em 30? (eu
já preocupada com o sistema de organização que
eu tinha levado 1 hora pra
desenvolver...)
MC:
Não meu amor, (uma facada no meu
rim), eu estou LHE dizendo para
você me entregar as 30 páginas para mim (segunda facada, no baço)
autenticar.
Z: E eu
estou LHE
dizendo que além dessas, tem mais 690 pra você fazer a
mesma coisa. (com muita irritação)
MC:
Só que cada pessoa só pode autenticar 30 por
dia.
Z: Como?
(Numa conta rápida, que nem eu acreditei que eu fiz)
Você está me dizendo que eu preciso levar 24 dias para
autenticar a documentação que eu preciso?
MC: Leva
isso tudo é? Vixe....
Z: Sim. Mas
isso é só aqui ou em qualquer um?
MC:
(A segunda melhor resposta do dia
acompanhada de um sorrisinho irônico)
Não sei... eu só trabalho aqui.
Z:
(A MELHOR resposta do dia, com
um sorrisinho mais irônico ainda) Ah
tá, achei que a senhora trabalhasse no circo também,
apresentando um número de Palhaçada.
Virei de costas e saí, que eu não ia ficar
pra ouvir a tréplica dela, óbvio. Fui pra casa com a
idéia de procurar outro cartório, mas fiquei achando
que se eu recebesse mais algum sorrisinho irônico naquela
tarde, eu ia começar a rezar para uma nova aorta
milagrosamente brotar em mim, a fim de suportar o fluxo
sanguíneo que certamente se direcionaria à minha
cabeça e, como eu rezo muito pouco, terminei
desistindo.
Hoje de manhã, peguei
meu pai na casa dele e fui a outro cartório no Shopping
Pituba Parque Center, pertinho de nossas casas, certa de
que o problema era daquela mulher e não meu. Além dos
documentos serem dele e para ele, (no dia anterior eu deixei ele em
casa para poupá-lo do saco) meu pai já pega fila
exclusiva de idosos, o que aumentaria a rapidez do processo.
Não, eu não costumo fazer isso; apesar de muitas
pessoas confundirem meu pançume com uma gravidez, eu
não uso esse subterfúgio vil e feio. Mas pelo amor de
deus, as minhas boas ações semanais já tinham
acabado por ontem. Lá fomos pegar nossa fila enoooooorme
exclusiva.
Na nossa vez o singelo senhor autenticador (não
sei o cargo dele de verdade, mas é essa a
função) que faz tudo muito
“educadamente”, virou para nós e pediu que
aguardássemos um instantinho que ele ia ali tirar a água do joelho. Ok, mais
informações do que eu precisava. Depois de quase 10
minutos, ele volta e me pergunta o que queremos. Meu pai diz o que
é. O inicio do fim....
O senhor “gentil” e “educado”
primeiro disse a meu pai que a fila exclusiva deveria andar
rápido (porque afinal de contas ele leva 10 minutos
no banheiro e precisa compensar o tempo!) e não podia
fazer isso. Segundo, deu uma olhada demorada pra mim e disse a meu
pai que a documentação deveria ser da pessoa que
estava na fila, gentilmente sugerindo que
meu pai estava na fila por minha causa. Ah, nessa hora
eu pirei geral! Fiquei possessa e despejei minha raiva da mulher do
outro dia e dele, nele. Disse que era um absurdo, que
não era possível que uma pessoa não
conseguisse fazer uma coisa tão simples!! Foi aí que
ele confirmou o que a mulher do outro cartório tinha dito (o
babdo das 30 cópias) e que se eu quisesse, eu desse meu
jeito. A essa altura, meu pai estava calmamente tirando a
identidade da carteira para comprovar que os documentos eram dele e
eu tentando arrastar meu pai dali ao berros.
[Aqui em casa a gente não
xinga na frente dos nossos pais, crescemos assim. Mas hoje meu pai
teve o desprazer de me ver xingar coisas que eu nem sei se ele sabe
o que é.]
Bem, enquanto eu estava no auge da minha fúria,
olhei rapidamente para cima do balcão e vi um papel escrito
dizendo que, resumidamente, segundo o artigo tal,
parágrafo tal desacato (xingar, agressão
física e outras mais) ao funcionário público
(o senhor “simpático", no caso) dava multa e cadeia na
hora. Foi então que eu me lembrei ter visto quando chegamos
que, lá no cantinho, no fundo do cartório estava um
PM. Tá. Fiquei
tensa. Mas aí eu fiquei com medo de verdade quando resolvi
olhar pro PM e ele tava
me olhando fixamente!!! Aí eu me desesperei total e sai
(literalmente) empurrando meu pai dalí, que ainda estava
tentando convencer o moço lá de que eram deles os
documentos. Meu pai é mesmo um cara pacífico e
naquele momento o que mais importava para ele era a
integridade cidadã dele. E eu
desesperada com medo de ser presa!!!!!!
Finalmente cheguei no carro suando igual a uma porca, com
uma raiva danada e sem saber o que fazer. Porque o juiz quer as
coisas bonitinhas para olhar, maaaaaaasssss.... quer dizer que pra
isso eu vou ter ficar 24 dias caminhando a um cartório
(novo, é claro, porque eu não sou nem besta de voltar
nesses dois)??? Tensa total. Ainda não descobri exatamente o
que fazer.
Fim do dia: minha cabeça está aqui
explodindo desde aquela hora; fato esse que comprova a minha teoria
que aortas milagrosas não brotam em corpos pagãos
como o meu....
ps: a imagem que eu
botei ali em cima, foi uma ironia, ok
pessoas?
Zezé
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